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Comida também é cultura. A cultura e o ODS 2

Ícone do ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, representado por um prato com vapor ao centro de um círculo dourado, cercado pelas cores dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Falar de fome sem falar de cultura é como discutir um livro ignorando a língua em que ele foi escrito. A alimentação não é apenas a soma de calorias, nutrientes e logística: ela é território, memória, tecnologia social, modo de vida — e também campo de disputa. E é exatamente aí que a cultura encontra o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável): não basta que haja alimento; é preciso que haja direito, acesso, adequação cultural, sustentabilidade e autonomia.

Essa mudança de chave é decisiva porque desloca a fome do campo da “escassez” para o campo do modelo. Em vez de apenas perguntar “como produzir mais?”, passamos a perguntar: quem decide o que se produz, como se distribui e o que chega ao prato — e com qual significado social e cultural?


1. Soberania alimentar: quando o prato vira política (e cultura)

(Contribuições às metas 2.1 e 2.4 do ODS 2)

Uma forma robusta de apresentar soberania alimentar é por sua diferença em relação à mera “segurança alimentar”. Segurança, muitas vezes, mede se a pessoa comeu; soberania pergunta quem controla o sistema alimentar — e se ele respeita diversidade cultural, territorial e ecológica.

No texto do Consea, Irio Luiz Conti define soberania alimentar como:

“o direito dos países definirem suas próprias políticas e estratégias de produção, distribuição e consumo de alimentos que garantam a alimentação para a população, respeitando as múltiplas características culturais dos povos em suas regiões.” (ideiasdecultura.com.br)

Essa formulação é importante porque insere a cultura dentro do direito: o alimento precisa ser “adequado” não apenas do ponto de vista nutricional, mas também do ponto de vista cultural. No mesmo texto, “adequada” é descrita como alimentação:

“adequada ao contexto e às condições culturais, sociais, econômicas, climáticas e ecológicas de cada pessoa, etnia, cultura ou grupo social.” (ideiasdecultura.com.br)

O ODS 2, lido por essa lente, deixa de ser apenas um objetivo de abastecimento e passa a ser um objetivo de justiça cultural: garantir comida não é só garantir “comida qualquer”, mas garantir condições para que pessoas e comunidades não percam seu repertório alimentar, seus modos de produzir e seus significados de mesa.

Um exemplo concreto: soberania alimentar em território quilombola

Quando um projeto atua em soberania alimentar dentro de uma comunidade tradicional, ele não está apenas “ensinando a plantar”: está reconectando economia, cultura e autonomia.

O Fundo Casa descreve o projeto “Picadas de Arte e Renda”, em comunidade quilombola no RN, como ação para minimizar efeitos da pandemia com foco no:

“fortalecimento do turismo de base comunitária, a soberania alimentar, e a promoção social.” (casa.org.br)

O detalhe é revelador: soberania alimentar aparece ao lado de turismo comunitário. Isso mostra algo que o ODS 2 precisa aprender com a cultura: comer também é pertencimento, e gerar renda sem romper com o território pode ser parte da solução contra a fome — e contra a dependência.

Soberania e meio ambiente: o elo com a agroecologia

O Pacto Contra a Fome sintetiza bem o encaixe entre soberania alimentar e crise climática ao relacionar soberania, preservação ambiental e modelos produtivos sustentáveis. (Pacto Contra a Fome)
Nesse ponto, cultura e ODS 2 se cruzam por uma via prática: sistemas alimentares sustentáveis raramente são neutros; eles costumam estar ancorados em saberes locais, diversidade de cultivo e relações comunitárias — isto é, cultura material viva.


2. Sabedoria popular e ancestral: guardiãs do que alimenta (e do que cura)

(Contribuições às metas 2.1, 2.4 e 2.5 do ODS 2)

A Fiocruz Brasília é direta ao situar o tema no campo do patrimônio e do território:

“Os saberes e sabores presentes na soberania alimentar do povo brasileiro são guardados pelos povos e comunidades tradicionais.” (Fiocruz Brasília)

A entrevista explica, na sequência, por que isso é mais do que uma afirmação simbólica:

“essas populações mantêm viva a sociobiodiversidade daquilo que nos alimenta e também daquilo que nos cura.” (Fiocruz Brasília)

O argumento aqui é estrutural. A insegurança alimentar tende a piorar quando há homogeneização do que se planta e do que se come. A sociobiodiversidade — mantida por práticas e memórias coletivas — funciona como estoque de resiliência: oferece alternativas diante de choques (climáticos, econômicos, logísticos) e reduz dependência de cadeias longas.

E a entrevista também desloca a lógica do “controle” para a lógica da “relação”, ao afirmar que a agroecologia:

“é mais um processo que permite a relação com a natureza do que a dominação do homem sobre a natureza.” (Fiocruz Brasília)

Essa diferença é decisiva para o ODS 2: a fome não se enfrenta apenas com produtividade; enfrenta-se com sistemas alimentares sustentáveis, capazes de durar, regenerar e circular conhecimento entre gerações. Por isso, a entrevista reforça que essas comunidades:

“são guardiãs das sementes, das práticas, dos patrimônios, dos aprendizados e nos ensinam muito.” (Fiocruz Brasília)

Se sementes são patrimônio, então cultura alimentar é também infraestrutura de futuro.


3. Sustentabilidade e soberania alimentar: diálogo de saberes como tecnologia social

(Contribuições às metas 2.1, 2.4 e 2.c do ODS 2)

O artigo dos Cadernos de Agroecologia (Ferreira, Monteiro e Guanais) faz uma ponte especialmente valiosa entre cultura, educação e soberania alimentar. Ele abre com um enquadramento que vale como tese:

“O desafio de transformar o sistema alimentar atual em agroecológico, surge como mudança de paradigma e inovação social, expressando a resistência e multiplicidade de práticas autônomas e solidárias.” (cadernos.aba-agroecologia.org.br)

Não é “só técnica agrícola”. É mudança de paradigma e inovação social. E isso conversa diretamente com projetos culturais: cultura é um dos campos que melhor opera mudança de paradigma porque trabalha com sentido, identidade, imaginário e circulação pública de referências.

O artigo também descreve o método dessa virada com uma frase que é, em si, uma política cultural aplicada ao alimento:

“A educação pressupõe diálogo com diferentes saberes, valorização de técnicas ancestrais de cultivo e reconhecimento que todo o processo é uma troca de vivências por si só.” (cadernos.aba-agroecologia.org.br)

Aqui está a espinha dorsal do raciocínio: resolver problemas alimentares não é apenas “transferir conhecimento” — é produzir diálogo intercultural e reconhecimento efetivo de repertórios locais. O texto reforça isso ao registrar a necessidade de uma relação “horizontal e dialógica” e ao situar o “saber popular” como conhecimento acumulado. (cadernos.aba-agroecologia.org.br)

E o artigo oferece uma síntese particularmente contundente (citando Ibrahima Coulibaly):

“Não há soberania alimentar sem Agroecologia. E certamente que a Agroecologia não durará sem uma política de soberania alimentar que a sustente”. (cadernos.aba-agroecologia.org.br)

Essa frase descreve uma dependência mútua: agroecologia sem política vira ilha; política sem agroecologia vira promessa vazia diante da crise climática.


4. PANCs: biodiversidade, cultura e resiliência climática — um diferencial brasileiro guardado em saberes populares

(Contribuições às metas 2.1, 2.4 e 2.5 do ODS 2)

Quando falamos de PANCs, não estamos apenas nomeando um conjunto “alternativo” de plantas. Estamos falando de uma gramática de sobrevivência e invenção cultural: o que comunidades aprenderam a colher, cultivar, preparar e compartilhar fora da lógica industrial.

O termo PANC surgiu pela primeira vez na tese de doutorado do pesquisador Valdely Kinupp e inclui plantas comestíveis que não tivessem produção industrial e não fossem consumidas pela população em geral. (Fortunato/G1, 2024)

O ponto é crucial: o sistema alimentar dominante define o que é “comida” e empurra para as margens uma diversidade enorme de espécies, técnicas e sabores. Reabilitar PANCs não é “voltar ao passado”: é ampliar repertórios para enfrentar vulnerabilidades do presente — clima instável, encarecimento de alimentos, cadeias longas e frágeis, perda acelerada de biodiversidade.

Kinupp explicita essa conexão de forma direta:

“Popularizar o conhecimento das PANC é vital, principalmente frente às mudanças climáticas, enchentes, secas prolongadas, essas plantas são alternativas para tudo, porque são adaptadas às diferentes condições, sejam ambientes alagados, solos pobres, expostos.”
(Fortunato/G1, 2024)

Aqui aparece uma dimensão estratégica: PANCs são um estoque de adaptação. Em vez de depender de poucos cultivos vulneráveis, comunidades podem contar com espécies adaptadas a condições adversas — o que se conecta diretamente à soberania alimentar como redução de dependências.

Mas há também um argumento cultural decisivo: PANC não é só botânica — é imaginário, arte, linguagem:

“As PANC estão na música, na arte, na poesia, no cinema, nos livros. Então, essas plantas são um tipo de alimento como qualquer outro.”
(Fortunato/G1, 2024)

Esse trecho faz a ponte perfeita com a tese do artigo. Se as PANCs circulam na arte, é porque carregam memória, território e identidade — e isso abre caminhos para projetos culturais atuarem no ODS 2 com potência real.

O texto do G1 também expõe um obstáculo típico quando comida é vista por hierarquia social:

“essas plantas ainda são muitas vezes vistas apenas como alimento para pessoas em situação de vulnerabilidade social. O estigma limita significativamente esse mercado…”
(Fortunato/G1, 2024)

E a barreira do desconhecimento aparece com precisão:

“As pessoas negligenciam as folhosas e frutas diferentes porque desconhecem, não sabem o nome, modo de preparo, quais receitas podem ser feitas. Então, é um trabalho contínuo de divulgação, não é simples.”
(Fortunato/G1, 2024)

Em outras palavras: ODS 2 exige também mediação cultural. Um alimento sem “nome”, repertório e preparo compartilhado não entra na feira, no prato, na escola — nem na política pública.


5. Gênero e soberanintribuições às metas 2.1, 2.3 e 2.4 do ODS 2)

O texto da Heinrich Böll Stiftung faz algo importante: ele tira a soberania alimentar do plano abstrato e a recoloca na vida cotidiana das mulheres camponesas — onde comida, trabalho, corpo, terra e poder se enredam.

Logo no início, as autoras afirmam que não basta “pensar a produção de alimentos saudáveis a partir de cada unidade de produção”: é necessário “organizar uma política de Estado” para que os alimentos “cheguem a quem não produz alimentos, a cada trabalhadora e trabalhador que vive na cidade.”
Isso amplia a soberania alimentar para além da roça: ela depende de circuitos de distribuição, de compras públicas, de infraestrutura e de políticas que valorizem a produção agroecológica.

A definição do artigo é explícita — e aqui vale citar integralmente, porque ela condensa a tese política e cultural:

“É isso que chamamos de soberania alimentar, a produção e distribuição de alimentos saudáveis e culturalmente adequados entre as/os camponesas/es e as/os trabalhadoras/es que vivem na cidade, construção que se dá a partir de uma agroecologia que é necessariamente feminista, antirracista e anticapitalista.”

A densidade está no “necessariamente”. O texto sustenta que a fome não se resolve só com técnica: ela exige enfrentar as desigualdades estruturais que definem quem decide e quem se beneficia do sistema alimentar.

O “quintal” como território político e cultural

Um dos trechos mais reveladores é quando o artigo mostra que a resistência feminina não foi “romântica”, mas tática e concreta. Ao comentar a preservação de sementes crioulas, as autoras relatam que, para manter seus costumes e formas de produzir, mulheres precisaram “plantar escondido no quintal”, usar “espaços da unidade de produção que ninguém usava” e até “enfrentar diretamente os técnicos, os filhos e os maridos.”
Isso é soberania alimentar em estado bruto: direito de produzir do próprio jeito — e o conflito aparece porque o patriarcado e a assistência técnica baseada em insumos externos negavam esse direito.

Nesse contexto, o quintal deixa de ser “o pequeno” e vira estratégia: “o quintal foi se tornando uma grande estratégia de preservação da diversidade produtiva e cultural das mulheres camponesas.”
Ou seja: diversidade alimentar não é só biodiversidade; é também diversidade cultural produzida e guardada por mulheres, muitas vezes em espaços invisibilizados.

Do cuidado invisível ao direito: sementes, renda e autonomia

O artigo reforça que a soberania alimentar, para o MMC, inclui “a valorização do trabalho histórico das mulheres na produção de alimentos” e seu reconhecimento como “sujeitas e cidadãs de direitos.”
E explicita a desigualdade estrutural: mesmo produzindo muito, mulheres enfrentam “desigualdade estrutural no acesso aos recursos produtivos”, e é “fundamental garantir o direito de igualdade no acesso à renda” e aos recursos da unidade de produção.
Aqui, a fome aparece conectada ao modo como o trabalho é dividido, hierarquizado e remunerado.

O texto ainda nomeia o coração do problema: “é preciso a superação da ideologia da divisão sexual do trabalho”, que “supervaloriza” o trabalho considerado masculino e “esconde” que mulheres “realizam todos os tipos de trabalho” na unidade de produção.
Sem mexer nessa engrenagem, não há soberania alimentar possível — porque não há autonomia real.

Por isso, a síntese final é contundente e deve permanecer como está no artigo:

“Soberania alimentar só se consegue com justiça de gênero, a partir do feminismo e da agroecologia.”


6. Comida como patrimônio cultural: decolonizar também é revalorizar o que alimenta

(Contribuições às metas 2.1 e 2.4 do ODS 2)

O Sustentarea (FSP/USP) propõe uma chave fundamental para entender por que “comida também é cultura”: reconhecer a alimentação como patrimônio não é eleger apenas “pratos típicos” para uma vitrine, mas reconhecer processos vivos — comunidades, territórios, técnicas, redes de transmissão e modos de existência. Por isso, o texto afirma que alimentos não são reconhecidos por “autenticidade” ou “tipicidade”, mas como:

“saberes e fazeres construídos nos processos de sobrevivência, de apropriação e transformação dos recursos naturais.” (fsp.usp.br)

Essa formulação é especialmente potente porque desloca o debate: patrimônio alimentar não é apenas o que está no prato — é o sistema cultural que torna aquele prato possível. E o texto torna isso explícito ao indicar que, para se tornarem patrimônio,

“as receitas e produtos alimentícios devem fazer parte de sistemas culturais complexos, sejam eles com foco na agricultura e/ou culinária.” (fsp.usp.br)

Quando olhamos a alimentação desse modo, ela deixa de ser “mercadoria descontextualizada” e passa a ser infraestrutura de pertencimento: técnicas de cultivo, formas de preparo, regras de partilha, economias locais, rituais e memória. Em linguagem do ODS 2, isso importa porque fortalece circuitos territoriais de produção e consumo, diversidade alimentar e meios de vida — dimensões indispensáveis para qualquer estratégia de fome zero que seja sustentável.

O Sustentarea ajuda a concretizar essa ideia ao apresentar exemplos brasileiros em que o que se protege não é só um alimento “famoso”, mas um modo de fazer e um universo social em torno dele. Entre os patrimônios alimentares citados, aparecem:

  • “O ofício das Baianas do Acarajé” — que não se resume ao bolinho, mas inclui técnica, trabalho, circulação urbana e identidade;

  • “O fazer artesanal de queijo Minas” — em que o conhecimento sobre produção, cura e qualidade está ligado ao território e às tradições locais;

  • “O Sistema Agrícola do Vale do Ribeira” — exemplo particularmente eloquente para o ODS 2, porque remete a práticas agrícolas e redes comunitárias que sustentam diversidade e continuidade. (fsp.usp.br)

Essa perspectiva se conecta diretamente com a proposta de práticas decoloniais: não se trata apenas de “celebrar” a comida brasileira, mas de reconhecer que muitos dos nossos repertórios alimentares foram construídos em condições históricas de desigualdade — e que valorizar esses repertórios hoje é também reparar silenciamentos, fortalecer comunidades e disputar sentidos sobre o que é “boa comida”.

Nesse mesmo espírito, o Nonada, veículo independente de jornalismo cultural e narrativo dedicado a temas como cultura, território, identidade e modos de vida, reforça o potencial brasileiro ao mostrar como alimentos e modos de fazer reconhecidos como bens culturais também podem gerar continuidade, renda e autoestima coletiva, aproximando patrimônio, identidade e desenvolvimento territorial. (nonada.com.br)


Para o ODS 2, a mensagem é clara: tratar comida como patrimônio é fortalecer sistemas alimentares que fazem sentido para as pessoas — e sistemas que fazem sentido têm mais chance de ser defendidos, transmitidos e sustentados ao longo do tempo.


7. Exemplos internacionais: arte e cultura como instrumentos do Fome Zero

(Contribuições às metas 2.1 e 2.c do ODS 2)

Argentina: democratizar o sistema alimentar (e descolonizar o paladar)

O relatório da Red CALISAS (IASSAA 2023) abre com uma frase-manifesto:

“A 40 años de la recuperación de la Democracia, necesitamos democratizar nuestro Sistema Alimentario”.

Tradução: “A 40 anos da recuperação da democracia, precisamos democratizar nosso sistema alimentar.”

E o documento explica o que significa “pouco democrático”:

“No todos pueden elegir qué comer y de dónde, se ejerce una fuerte imposición del mercado respecto a qué producir y qué consumir.”

Tradução: “Nem todos podem escolher o que comer e de onde; há uma forte imposição do mercado sobre o que produzir e o que consumir.”

Há ainda um trecho culturalmente brilhante, registrado como fala em fórum:

“Tenemos el paladar colonizado”.

Tradução: “Temos o paladar colonizado.”
Isso é um argumento precioso para projetos culturais: a colonização não é só de terra — é também de desejo, hábito e gosto. Mexer nisso é trabalho cultural.

E o relatório fecha o círculo com educação e autonomia:

“para poder decidir hay que saber”.

Tradução: “para poder decidir, é preciso saber.”

China: arte para engajar e inspirar

A FAO na China descreve a “Zero Hunger Art Exhibition” como uma exposição “designed to engage and inspire the public with the fight for a ‘Zero Hunger’ world”, reunindo linguagens como pintura, fotografia, filme e instalações, além de mobilizar estudantes em um concurso de arte. (FAOHome)

O argumento é objetivo: cultura não é enfeite; é mobilização pública, disputa de sentidos e construção de vontade coletiva.

Índia: arte aplicada como modelo de doação recorrente

A matéria da Professional Saathi descreve o The Plated Project como empreendimento que combina arte e filantropia, com criação de pratos de edição limitada e financiamento de refeições por meio de parceiros. (professionalsaathi.com)
E o próprio projeto declara, em sua seção de FAQ, uma regra clara de sustentabilidade do modelo:

“We donate 50% of our net profits every month to our charity partner…”

Tradução: “Doamos 50% dos nossos lucros líquidos todos os meses para nossa instituição parceira…”

8. O que projetos culturais podem fazer, na prática, pelo ODS 2

(Contribuições às metas 2.1, 2.4 e 2.c do ODS 2)

Aqui está o ponto de convergência: se a fome é também crise de democracia (Argentina), de modelo produtivo (soberania), de epistemologia (agroecologia) e de reconhecimento (Fe ação.

a) Salvaguardar saberes tradicionais (agroecologia, PANCs e cultura alimentar)

A Fiocruz lembra que “saberes e sabores” são guardados por povos e comunidades tradicionais. (Fiocruz Brasília), e o IASSAA argentino oferece a frase-guia para qualquer ação cultural nesse campo, já mencionada, mas importante o suficiente pra ser reforçada: “para poder decidir hay que saber” — em tradução: “para poder decidir, é preciso saber.”

Na prática, isso pode virar programa cultural: inventários comunitários, rodas intergeracionais, laboratórios sensoriais (paladar e memória), publicações de receitas comentadas, cine-debates, feiras narradas, residências artísticas e ações educativas em escolas e centros culturais.

b) Doar parte da receita para instituições que atuam contra a fome

O exemplo do The Plated Project mostra uma arquitetura simples e replicável: usar um bem cultural (objeto artístico, edição limitada, experiência estética) para sustentar doações mensais recorrentes — “50% of our net profits every month”. (The Plated Project)

Projetos culturais brasileiros podem adaptar o princípio sem copiar o formato: percentual de bilheteria, vendas, licenciamento, produtos culturais, leilões artísticos, festivais com “ingresso social”, programas de associados.

c) Conscientizar sobre a fome por meio da arte (arte-educação + ação concreta)

A Action Against Hunger descreve o “Drawing against Hunger” como:

“A creative solidarity project for schools”
“Hunger is a real issue, but it’s not inevitable!” (Action contre la Faim)

Tradução: “Um projeto criativo e solidário para escolas… A fome é um problema real, mas não é inevitável!”

E a estrutura é particularmente eficaz: educação, oficinas criativas, exposição solidária e arrecadação. (Action contre la Faim)
Em termos de ODS 2, isso é poderoso porque transforma indignação em participação e participação em recurso — além de produzir repertório público sobre a fome que vai além do dado estatístico.


Considerações finais

Dizer que “comida também é cultura” não é licença poética: é afirmar que o ODS 2 depende de dimensões frequentemente tratadas como periféricas — pertencimento, repertório, transmissão de saberes, reconhecimento, patrimônio, imaginação pública.

Quando soberania alimentar inclui “múltiplas características culturais”, (ideiasdecultura.com.br) quando a Fiocruz reconhece povos e comunidades tradicionais como guardiãs de “saberes e sabores”, (Fiocruz Brasília) quando a agroecologia é apresentada como mudança de paradigma e inovação social, (cadernos.aba-agroecologia.org.br) o que está em jogo é um ponto simples: não existe soberania alimentar sem cultura viva.


Referências e leituras para aprofundamento

ACTION AGAINST HUNGER. Drawing against Hunger. s.l.: Action Against Hunger, s.d. Disponível em: https://www.actioncontrelafaim.org/en/get-involved/school/drawing-against-hunger/ (Action contre la Faim)

CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL (CONSEA). Direito humano à alimentação adequada e soberania ali (atualizado em 2024). Disponível em: https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/assuntos/consea/publicacoes/extra-1-direito-humano-a-alimentacao-adequada-e-soberania-alimentar (ideiasdecultura.com.br)

FIOCRUZ BRASÍLIA. Entrevista: Soberania alimentar e patrimônio cultural para a promoção da saúde e do bem viver. Brasília: Fiocruz, 31 maio 2019. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/entrevista-soberania-alimentar-e-patrimonio-cultural-para-a-promocao-da-saude-e-do-bem-viver/ (Fiocruz Brasília)

FERREIRA, C.; MONTEIRO, B.; GUANAIS, M. O diálogo intercultural entre educação alimentar e nutricional e agroecologia: pela construção da soberania alimentar. Cadernos de Agroecologia, v. 19, n. 1, 2024. Disponível em: https://cadernos.aba-agroecologia.org.br/cadernos/article/view/9659/7212 (cadernos.aba-agroecologia.org.br)

FUNDO CASA SOCIOAMBIENTAL. Projeto promove soberania alimentar em comunidade quilombola potiguar. s.l.: Fundo Casa, 18 jul. 2022. Disponível em: https://casa.org.br/projeto-promove-soberania-alimentar-em-comunidade-quilombola-potiguar/ (casa.org.br)

HEINRICH BÖLL STIFTUNG BRASIL. Soberania alimentar: um projeto político a partir da experiência das mulheres camponesas. Rio de Janeiro: Heinrich Böll Stiftung, 25 nov. 2021. Disponível em: https://br.boell.org/pt-br/2021/11/25/soberania-alimentar-um-projeto-politico-partir-da-experiencia-das-mulheres-camponesas (Heinrich Böll Stiftung RJ)

G1 (TERRA DA GENTE). ‘Popularizar o conhecimento sobre PANCs é vital, principalmente frente às mudanças climáticas’, diz biólogo que cunhou termo. Por Larissa Fortunato. São Paulo: G1, 27 jul. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2024/07/27/popularizar-o-conhecimento-sobre-pancs-e-vital-principalmente-frente-as-mudancas-climaticas-diz-biologo-que-cunhou-termo.ghtml

PACTO CONTRA A FOME. Soberania alimentar: entenda o que é e qual a situação no Brasil. s.l.: Pacto Contra a Fome, s.d. Disponível em: https://pactocontrafome.org/soberania-alimentar/ (Pacto Contra a Fome)

SUSTENTAREA (FSP/USP). Comida como patrimônio: políticas e práticas decoloniais. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP, 27 jan. 2023. Disponível em: https://www.fsp.usp.br/sustentarea/2023/01/27/comida-como-patrimonio-politicas-e-praticas-decoloniais/ (Faculdade de Saúde Pública da USP)

NONADA JORNALISMO. Comida também é patrimônio: conheça alimentos brasileiros que são bens culturais. Porto Alegre: Nonada, 02 abr. 2025. Disponível em: https://www.nonada.com.br/2025/04/comida-tambem-e-patrimonio-conheca-alimentos-brasileiros-que-sao-bens-culturais/ (Nonada Jornalismo)

FAO. Zero Hunger Art Exhibition opens in Beijing. Beijing: FAO in China, 27 nov. 2018. Disponível em: https://www.fao.org/china/news/detail/Zero-Hunger-Art-Exhibition-opens-in-Beijing-/en (FAOHome)

PROFESSIONAL SAATHI. How The Plated Project is Using Art to End Hunger in India. s.l.: Professional Saathi, s.d. Disponível em: https://professionalsaathi.com/blog/how-the-plated-project-is-using-art-to-end-hunger-in-india (professionalsaathi.com)

THE PLATED PROJECT. FAQs. s.l.: The Plated Project, s.d. Disponível em: https://theplatedproject.com/pages/faqs (The Plated Project)

RED CALISAS. Informe Anual de la Situación de la Soberanía Alimentaria en Argentina (IASSAA 2023): “A 40 años de la recuperación de la Democracia, necesitamos democratizar nuestro Sistema Alimentario”. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: IADE, 2024. Disponível em: https://www.iade.org.ar/noticias/informe-anual-de-la-situacion-de-la-soberania-alimentaria-en-argentina-2023

 

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