Nos últimos anos, a discussão sobre energia renovável deixou de ser um tema estritamente técnico para tornar-se também uma pauta cultural. A potência simbólica das artes, dos festivais e do patrimônio tem se revelado uma aliada fundamental na construção de novos comportamentos sociais — e isso faz do setor cultural um terreno fértil para avançar no ODS 7, que propõe acesso universal, fiável e sustentável à energia limpa.
Hoje, é possível observar uma convergência inspiradora: eventos culturais que experimentam sistemas inovadores de geração energética, discussões públicas que colocam a sustentabilidade no centro da experiência e iniciativas globais que reconhecem a cultura como vetor de transformação ambiental. Esse movimento, ainda em curso, demonstra que a transição energética não depende apenas de tecnologias eficientes, mas também de valores, práticas e imaginários compartilhados — em suma, depende de cultura.
Festivais como laboratórios vivos para energias renováveis
Diversos festivais têm assumido o papel de “laboratórios” onde soluções energéticas são testadas diante de milhares de pessoas. Em Londres, Amsterdã e outras cidades europeias, iniciativas vêm explorando energias solares, eólicas e até soluções de microgeração coletiva.
Um dos casos mais emblemáticos é o do Glastonbury Festival, que em 2023 instalou um aerogerador de 20 metros capaz de abastecer uma pequena rede de mercado com energia suficiente para operar cerca de 300 geladeiras por dia (BBC, 2024). O impacto simbólico desse tipo de intervenção é imediato: o público não apenas consome música, mas presencia a operação de um sistema energético limpo, compreensível e palpável.
Outro exemplo vem da Holanda: o festival Mysteryland já alcançou a marca de 80% de sua eletricidade proveniente de uma fazenda solar próxima ao local do evento (BBC, 2024). A organização ainda investiu na conexão ao grid nacional, reduzindo a dependência de geradores a diesel e assegurando retorno econômico no longo prazo.
Além das grandes estruturas, tecnologias de microgeração também vêm ganhando espaço. Pisos que convertem passos em energia — como os da empresa Energy Floors — já apareceram em festivais europeus, permitindo que o público literalmente dance para produzir energia (Energy Floors, s.d.). O storytelling é poderoso: ao transformar o corpo das pessoas em parte do processo energético, cria-se uma experiência de pertencimento e corresponsabilidade ambiental.
No Brasil, uma iniciativa semelhante aparece no Festival Força no Pedal, que utiliza bicicletas para a geração de energia durante sua programação (iG, 2025). Ao engajar o público em práticas de geração ativa, o festival reforça de maneira lúdica o potencial das energias renováveis e estimula a compreensão coletiva sobre o tema.
Cultura como força de mudança no comportamento energético
Pesquisas recentes revelam que as transições energéticas não avançam apenas pela via tecnológica: são também processos culturais complexos. O estudo de Sovacool e Griffiths, abrangendo 28 países, demonstra como crenças, hábitos, valores e percepções moldam — e muitas vezes limitam — a adoção de práticas de baixo carbono (Sovacool & Griffiths, 2019).
Isso significa que mesmo soluções tecnicamente eficientes podem fracassar se não dialogarem com as formas de vida e com os significados atribuídos ao uso da energia. Exemplos dessa dinâmica são observados em iniciativas de energia solar na Ásia e na Oceania, incluindo Bangladesh, Nepal e Papua-Nova Guiné (Sovacool & Griffiths, 2019).
A lição é clara: políticas de energia limpa precisam considerar culturas locais e suas práticas. Os festivais, por outro lado, têm a vantagem de trabalhar justamente com a dimensão simbólica. Eles podem apresentar tecnologias de modo sensível, incorporado à experiência estética, reduzindo a distância entre inovação e cotidiano.
Esses espaços constituem ambientes privilegiados para “alfabetização energética”: ao vivenciar o uso de energias renováveis em situações de lazer, o público tende a incorporá-las como parte natural de seu repertório imaginativo, reduzindo resistências que, em outros contextos, aparecem como barreiras culturais.
A força da comunicação cultural para o ODS 7
Organizações especializadas, como a Powerful Thinking, indicam que a comunicação é uma das dimensões mais decisivas para o sucesso das práticas energéticas sustentáveis em eventos (Powerful Thinking, s.d.). Informar, engajar e revelar a lógica por trás das escolhas energéticas aumenta a transparência e reforça a identificação do público com a causa.
Mais do que comunicar números, trata-se de criar narrativas. Quando festivais como Shambala, no Reino Unido, mostram que eliminaram o uso de carne em suas operações e migraram para combustíveis renováveis — substituindo diesel por óleos vegetais hidrogenados e sistemas híbridos (BBC, 2024) —, produzem não só um impacto ambiental mensurável, mas também um discurso cultural capaz de mobilizar imaginários e práticas.
O que está em jogo é a formação de uma cultura energética: um conjunto de atitudes, valores e comportamentos que tornam desejável, compreensível e socialmente reconhecido o uso de energias limpas. Assim, o setor criativo não apenas experimenta soluções, mas desempenha um papel pedagógico, ampliando a adesão social às transições em curso.
Países que avançam na transição energética — e suas lições culturais
No cenário internacional, países como Holanda, Reino Unido e Noruega mostram que avanços substantivos em energias renováveis estão frequentemente ligados a mudanças culturais.
A Holanda, por exemplo, além de integrar sistemas solares a eventos como o Mysteryland, investe há décadas na criação de uma cultura de mobilidade sustentável — incluindo bicicletas como parte do estilo de vida cotidiano (Sovacool & Griffiths, 2019; BBC, 2024).
A Noruega também desponta ao combinar políticas robustas de eletrificação veicular com hábitos culturais de uso consciente da energia, ainda que práticas domésticas — como aquecer ambientes inteiros para garantir “coziness” — revelem tensões culturais persistentes (Sovacool & Griffiths, 2019).
Já o Reino Unido fortalece o diálogo entre cultura e energia por meio de festivais como Glastonbury e políticas de comunicação que envolvem artistas, público e organizações da sociedade civil (BBC, 2024; Thinkhouse, s.d.).
Esses exemplos deixam evidente que a transição não é apenas uma questão de infraestrutura: ela exige participação social, diálogo com hábitos locais e a invenção de novas formas de convivência energética.
Cultura, imaginação e os futuros possíveis
A cultura tem a capacidade de mover percepções e sensibilidades — e, com isso, mover políticas e investimentos. Quando o público participa da geração de energia por meio de bicicletas, quando pisa em pisos que acendem com sua presença ou quando vê turbinas e painéis solares alimentando palcos, a experiência estética transforma-se em experiência política.
O impacto da cultura no ODS 7, portanto, vai além da adoção de tecnologias. Trata-se da construção de futuros compartilhados, onde as pessoas compreendem seu papel ativo na transição energética e se apropriam das mudanças como parte de suas narrativas de vida.
No contexto brasileiro, onde a criatividade é abundante e os eventos culturais ocupam papel central na vida social, há um enorme potencial para que a cultura lidere a transformação energética — testando soluções, comunicando possibilidades e ampliando a consciência coletiva.
Se a energia que movimenta o mundo é também simbólica, então os festivais, a arte e a cultura são motores indispensáveis para impulsionar a imaginação social rumo a um futuro mais limpo e sustentável. É nesse entrelaçamento entre estética, técnica e comunidade que o ODS 7 ganha vida — não apenas como meta, mas como horizonte comum.
Bibliografia
BBC. The festivals searching for greener ways to rock. 12 fev. 2024.
Sovacool, B. K.; Griffiths, S. The cultural barriers to a low-carbon future: A review of six mobility and energy transitions across 28 countries. Renewable and Sustainable Energy Reviews, 2019.
UNESCO. World Heritage and Renewable Energy. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/renewable-energy/.
Energy Floors. How concert tours and festivals can be more sustainable. Disponível em: https://energy-floors.com/.
ThinkHire. Renewable energy sources: the new headline act at Europe’s music festivals. Disponível em: https://www.thinkhire.co.uk/.
iG. Força no Pedal: festival usará energia gerada por bicicletas. 22 set. 2025.
Jornal de Brasília. SESI Lab promove festival para discutir energia, clima e futuro. s.d.
Thinkhouse Youth Lab. Greener festivals go mainstream. Disponível em: https://www.thinkhousehq.com/.
Powerful Thinking. Communicating Green Energy. Disponível em: https://www.powerful-thinking.org.uk/.









