Há uma ideia silenciosa (e perigosa) rondando muitos projetos culturais: a de que parceria é apenas um meio de viabilizar atividades. O ODS 17 propõe outra chave — mais sofisticada e mais exigente: parcerias são o próprio modo de implementação. São a engrenagem que transforma intenção em escala, e escala em transformação.
Quando o debate é “cultura + Agenda 2030”, o ODS 17 às vezes fica em segundo plano, como se fosse um objetivo “mais institucional” do que artístico. Mas as evidências e experiências locais apontam o contrário: a cultura entra no ODS 17 com naturalidade, porque já opera com redes, colaboração, mediação, circulação de conhecimento, articulação territorial e governança compartilhada.
A seguir, organizo o raciocínio em cinco movimentos — do conceito aos indicadores — para que seus projetos culturais consigam contribuir de forma mensurável com o ODS 17.
ODS 17 em poucas linhas: o objetivo que faz os outros acontecerem
O enunciado oficial do ODS 17 é direto:
“Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a Parceria Global para o Desenvolvimento Sustentável.”
Na prática, o ODS 17 reúne 19 metas (17.1 a 17.19) que cobrem cinco blocos:
- Finanças (ex.: mobilização de recursos; cooperação para países em desenvolvimento);
- Tecnologia e capacitação (acesso a ciência, tecnologia e inovação; transferência tecnológica);
- Comércio (sistema multilateral; ampliação de exportações);
- Coerência e governança (coordenação e coerência de políticas);
- Dados e monitoramento (dados de qualidade e métricas além do PIB).
Para projetos culturais, o ODS 17 é um convite a formalizar o que o setor já faz bem — trabalhar em rede — e aprimorar o que ainda costuma ser frágil — modelos de sustentabilidade, pactos de governança e métricas de impacto.
Por que a cultura tem tudo a ver com parcerias e meios de implementação
O ODS 17 trata de “meios” (financiamento, tecnologia, dados, comércio, governança) e de “laços” (parcerias multissetoriais). E é justamente aí que a cultura tem vantagem comparativa: ela cria confiança pública, produz linguagem comum e transforma participação em método — condições básicas para qualquer parceria funcionar fora do papel.
Um estudo publicado na One Earth (Zheng et al., 2021) sintetiza um ponto relevante para quem desenha políticas e projetos: considerar cultura é vital para alcançar os ODS, porque o ambiente cultural influencia aceitação, eficácia e resultados de estratégias como financiamento, cooperação tecnológica, alianças e abertura comercial — todas dimensões diretamente conectadas ao ODS 17.
E quando olhamos para experiências locais de implementação da Agenda 2030, o recado fica ainda mais concreto: há evidências de que a cultura aparece associada a canais como governança participativa, participação social, ferramentas de sensibilização (inclusive em orçamento participativo), diálogo intercultural e parcerias com sociedade civil para entrega de serviços culturais, além de pesquisa (como patrimônio cultural).
Quando a parceria vira prática: exemplos culturais conectados ao ODS 17
1) Cultura como rede, articulação territorial e política pública local
O relatório da Culture 2030 Goal Campaign indica que, no ODS 17, a cultura aparece com ênfase em metas ligadas a cooperação em ciência/tecnologia/inovação (17.6–17.8), coerência de políticas (17.14), parcerias multissetoriais (17.16–17.17) e dados de qualidade (17.18).
Esse ponto é precioso: ele nos diz que cultura não entra apenas como “conteúdo” — entra como infraestrutura de implementação.
2) Acessibilidade cultural como parceria multissetorial (um exemplo brasileiro)
No artigo apresentado no XVII ENECULT, há um exemplo explícito de projeto identificado com o ODS 17: a criação de um boletim anual em braille para acessibilizar notícias e acontecimentos importantes, associando-se à meta 17.16 (parcerias multissetoriais). O texto registra o objetivo do ODS 17 e explicita a escolha da meta 17.16 como referência da iniciativa.
Aqui, a contribuição cultural é dupla:
- entrega de valor público (acessibilidade e direito à informação);
- ativação de parcerias (rede entre cultura, inclusão, comunicação, instituições e financiamento).
3) Setor privado como plataforma de cooperação (o caso do Pacto Global)
Quando falamos de parcerias, é inevitável olhar para arranjos que organizam colaboração em escala. O site do Pacto Global Brasil descreve a iniciativa como voluntária, com alcance global, e afirma que ela reúne mais de 25 mil participantes e mais de 67 redes locais; no Brasil, aponta mais de 1.900 participantes e dezenas de iniciativas em andamento.
Para projetos culturais, a aprendizagem aqui é estratégica: parceria não é só patrocínio. Pode ser:
- cooperação técnica,
- compartilhamento de dados,
- apoio pro bono,
- governança conjunta,
- e desenho de plataformas de ação.
4) Repertório público como ferramenta de engajamento
A publicação do Instituto Legado (Sena, 2021) organiza exemplos por ODS como forma de tornar a Agenda 2030 mais inteligível para o ecossistema de empreendedorismo social. Mesmo quando o foco não é cultura, esse tipo de curadoria cumpre uma função cultural crucial: traduzir complexidade em repertório compartilhável, o que facilita engajamento e parceria.
Como desenhar projetos culturais que “nascem em rede”
Aqui vai um conjunto de ações práticas (e realistas) que costumam elevar um projeto cultural do “bem-intencionado” ao “implementável em rede”:
- Desenhar um mapa de parceria desde o início
- Quem traz recurso (financeiro, espaço, equipe, tecnologia)?
- Quem traz legitimidade territorial?
- Quem assegura continuidade após a temporada?
- Trocar “apoio” por “contrapartida de conhecimento”
- Em vez de pedir apoio genérico, proponha:
- formação compartilhada,
- mentoria,
- coprodução,
- laboratório público,
- circulação de metodologia.
- Em vez de pedir apoio genérico, proponha:
- Formalizar governança com leveza
- Um termo de cooperação simples, com:
- objetivos,
- responsabilidades,
- critérios de transparência,
- rotinas de prestação de contas.
- Um termo de cooperação simples, com:
- Incluir tecnologia e dados como parte do projeto cultural
- Mesmo um projeto pequeno pode:
- padronizar cadastros,
- criar instrumentos de escuta,
- organizar dados desagregados (quando pertinente),
- documentar aprendizados em formato replicável.
- Mesmo um projeto pequeno pode:
- Construir acessibilidade como estratégia de parceria
- Acessibilidade frequentemente exige rede (técnica, instituições, financiamento, comunicação).
- O exemplo do boletim em braille mostra como acessibilidade pode ser estruturada como parceria multissetorial (17.16).
Metas do ODS 17 que viram bússola de ação e indicadores
Você indicou as metas mais relacionadas: 17.1, 17.2, 17.3, 17.6, 17.7, 17.8, 17.10, 17.11, 17.16, 17.18 e 17.19. Abaixo, uma leitura aplicada (com sugestões de indicadores “culturais” possíveis):
17.1, 17.2, 17.3 — Financiamento e mobilização de recursos
Como virar ação cultural
- diversificar fontes (público, privado, cooperação, receitas próprias);
- criar fundos locais (microdoação recorrente, clube de apoiadores, matchfunding);
- pactuar investimento com contrapartida social mensurável.
Indicadores possíveis
- % do orçamento vindo de múltiplas fontes;
- nº de parceiros financeiros ativos por ciclo;
- valor mobilizado via campanhas/cotas comunitárias.
17.6, 17.7, 17.8 — Ciência, tecnologia, inovação e transferência
Como virar ação cultural
- residências e laboratórios (arte + tecnologia);
- acordos com universidades e institutos;
- adoção de tecnologias “ambientalmente adequadas” em produção cultural.
Indicadores possíveis
- nº de ações de capacitação em tecnologia/inovação;
- nº de soluções tecnológicas aplicadas ao projeto;
- nº de parcerias com instituições de ciência e educação.
17.10 e 17.11 — Comércio e inserção econômica
Aqui, o ponto não é “exportar cultura” por glamour, mas fortalecer cadeias e circulação com justiça:
- circulação internacional (quando fizer sentido);
- distribuição e monetização ética de produtos culturais;
- redes de colaboração para acesso a mercados.
Indicadores possíveis
- nº de ações de circulação (regional/nacional/internacional);
- receita de bens/serviços culturais em rede;
- nº de acordos de distribuição e difusão.
17.16 — Parcerias multissetoriais
É a meta mais diretamente “cultural” no cotidiano do setor.
Como virar ação cultural
- coalizões (cultura + educação + saúde + assistência + clima);
- consórcios de territórios (equipamentos culturais em rede);
- parcerias com empresas via plataformas (ex.: Pacto Global).
Indicadores possíveis
- nº de parceiros por setor (público, privado, sociedade civil, academia);
- nº de entregas realizadas em coprodução;
- horas de trabalho pro bono e cooperação técnica.
17.18 e 17.19 — Dados e novas métricas
Aqui a cultura pode brilhar, porque já sabe medir “intangíveis” quando quer — participação, pertencimento, diversidade, acesso, fruição.
Como virar ação cultural
- criar instrumentos simples de coleta (inscrições, perfil, participação, retorno);
- produzir relatórios públicos (transparência e aprendizagem);
- adotar indicadores para além de “quantidade de público”.
Indicadores possíveis
- disponibilidade de dados desagregados (quando aplicável e ético);
- frequência e qualidade de relatórios de monitoramento;
- uso de métricas de bem-estar, participação e acesso (além de receita/PIB).
Fechamento
O ODS 17 não pede que a cultura “se adapte” à Agenda 2030 como um apêndice burocrático. Ele oferece algo mais interessante: um vocabulário para qualificar aquilo que o setor cultural já faz — tecer redes, abrir diálogos, organizar participação, circular conhecimento e transformar colaboração em infraestrutura.
A pergunta que fica para projetos culturais não é “com quem vou fazer parceria?”, mas:
que tipo de mundo minha parceria torna possível — e como vou provar isso com dados, método e compromisso público?
Referências e leituras para aprofundamento
CULTURE 2030 GOAL CAMPAIGN. Culture in the Localization of the SDGs: An Analysis of Voluntary Local Reviews. Barcelona; Paris; Abidjan; Montreal; The Hague; Brussels: Culture 2030 Goal Campaign, 2021. Disponível em: https://culture2030goal.net/sites/default/files/2022-03/af_culture2030goal_2021.pdf. Acesso em: 23 fev. 2026.
DORNELES, Patricia. Projetos culturais e a Agenda 2030: relatos de uma experiência no Brasil no ano de 2020 (XVII ENECULT). Salvador/BA: ENECULT/UFBA, 2020. Disponível em: https://www.enecult.ufba.br/modulos/submissao/Upload-568/132055.pdf. Acesso em: 23 fev. 2026.
NAÇÕES UNIDAS. Goal 17: Strengthen the means of implementation and revitalize the Global Partnership for Sustainable Development (Targets and Indicators). Disponível em: https://sdgs.un.org/goals/goal17. Acesso em: 23 fev. 2026.
PACTO GLOBAL – REDE BRASIL. Sobre nós. Disponível em: https://www.pactoglobal.org.br/sobre-nos/. Acesso em: 23 fev. 2026.
SENA, Stephane. 17 exemplos de negócios sociais que atendem aos ODS. Instituto Legado, 17 jul. 2021. Disponível em: https://institutolegado.org/blog/17-exemplos-de-negocios-sociais-que-atendem-os-ods/. Acesso em: 23 fev. 2026.
ZHENG, Xinzhu; WANG, Ranran; HOEKSTRA, Arjen Y.; KROL, Maarten S.; ZHANG, Yaxin; GUO, Kaidi; SANWAL, Mukul; SUN, Zhen; ZHU, Junming; ZHANG, Junjie; LOUNSBURY, Amanda; PAN, Xunzhang; GUAN, Dabo; HERTWICH, Edgar G.; WANG, Can. Consideration of culture is vital if we are to achieve the Sustainable Development Goals. One Earth, 2021. DOI: 10.1016/j.oneear.2021.02.007. Acesso em: 23 fev. 2026.








