Biodiversidade como política cultural — e não como cenário
Existe uma tendência recorrente em projetos culturais: tratar natureza como ambientação estética, e não como dimensão estruturante da vida social. O ODS 15 — Vida Terrestre, convida a um deslocamento mais sofisticado. Ele não fala apenas de florestas, mas de sistemas vivos, territórios, biodiversidade e modos de existência que sustentam economias, culturas e identidades.
Quando gestores culturais incorporam o ODS 15 de forma estratégica, deixam de apenas “abordar o tema ambiental” e passam a estruturar projetos que reconhecem o território como sujeito político, ativo e portador de direitos.
Este artigo articula fundamentos conceituais, evidências científicas e experiências concretas, nacionais e internacionais, que podem inspirar projetos culturais comprometidos com a Agenda 2030.
O que estabelece o ODS 15
Segundo a Organização das Nações Unidas, o ODS 15 tem como objetivo:
“Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade.”
Entre suas metas, algumas se mostram particularmente estratégicas para o campo cultural:
- 15.1 — Conservação e uso sustentável de ecossistemas terrestres e de água doce;
- 15.3 — Combate à desertificação e restauração de terras degradadas;
- 15.5 — Redução significativa da degradação de habitats naturais e da perda de biodiversidade;
- 15.9 — Integração dos valores dos ecossistemas e da biodiversidade aos planejamentos nacionais e locais;
- 15.a — Mobilização e ampliação de recursos financeiros para conservação.
A meta 15.9 merece atenção especial: ela convoca governos e instituições a incorporarem o valor da biodiversidade às políticas públicas. Isso exige linguagem, mediação, sensibilização e pactuação social — dimensões em que a cultura opera com legitimidade e alcance.
O que diz a ciência: cultura molda comportamento ambiental
A relação entre cultura e biodiversidade não é intuitiva apenas para o setor cultural — ela é respaldada por pesquisa científica consolidada.
No artigo publicado na revista One Earth, Zheng et al. (2021) afirmam:
“A consideração da cultura é vital para que possamos alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.”
Os autores demonstram que valores culturais, normas sociais e identidades coletivas influenciam diretamente a aceitação e a eficácia de políticas ambientais. Em termos práticos: as pessoas não mudam comportamento apenas porque há evidência técnica; mudam quando a mudança faz sentido dentro de seus valores e pertencimentos.
Essa leitura dialoga com a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos — IPBES — que, em seu Global Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services (2019), destaca que a perda de biodiversidade está ligada a padrões culturais de consumo, produção e relação com a natureza. O relatório afirma:
“Mudanças transformadoras requerem mudanças fundamentais nos valores, nas estruturas sociais e nos sistemas econômicos.”
Em tradução conceitual: conservar biodiversidade exige transformação cultural.
Outro estudo relevante, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por Bennett et al. (2017), argumenta que abordagens ambientais eficazes dependem de integração entre conhecimento científico e valores culturais locais. Os autores destacam que:
“Intervenções ambientais que ignoram contextos culturais tendem a fracassar ou gerar resistência social.”
A UNESCO também reforça, em relatórios sobre cultura e desenvolvimento sustentável, que práticas culturais moldam a forma como comunidades percebem território, paisagem e recursos naturais.
Para gestores culturais, a síntese científica é clara:
-
biodiversidade não é apenas questão ecológica,
-
é questão simbólica, ética e identitária,
-
e projetos culturais são instrumentos de transformação normativa.
Quando oficinas, festivais, exposições ou residências artísticas criam novas narrativas sobre território, estão influenciando comportamento ambiental — exatamente como apontam os estudos científicos.
Experiências que conectam cultura e biodiversidade
Instituto Terra — restauração como narrativa pública
Fundado por Sebastião Salgado e Lélia Wanick Salgado, o Instituto Terra tornou-se referência internacional em restauração da Mata Atlântica no Vale do Rio Doce (MG).
A origem do projeto é simbólica: ao retornarem à antiga fazenda da família, encontraram a paisagem devastada. A resposta não foi apenas técnica, mas cultural — mobilização internacional, narrativa visual, educação ambiental e recuperação florestal articuladas como projeto de longo prazo.
Conexões com ODS 15:
- 15.3 (restauração de áreas degradadas);
- 15.a (mobilização de recursos);
- 15.9 (integração do valor ecológico à política pública).
WWF-Brasil — mobilização simbólica em escala
Campanhas como a Hora do Planeta demonstram como mobilização simbólica amplia a pauta ambiental. Ao convidar cidades, empresas e cidadãos a apagarem as luzes por uma hora, o gesto simbólico se transforma em linguagem política global.
A força da campanha está menos na economia de energia daquela hora e mais na construção de consciência coletiva.
Conexões com ODS 15:
- 15.5 (conscientização sobre perda de biodiversidade);
- 15.a (mobilização de apoio social e recursos).
Instituto Socioambiental (ISA) — biodiversidade e patrimônio cultural
O ISA atua na defesa de bens e direitos socioambientais em todo o território brasileiro, articulando proteção ambiental, patrimônio cultural e direitos dos povos indígenas.
Sua atuação demonstra que biodiversidade e cultura são indissociáveis quando se trata de territórios tradicionais.
Conexões com ODS 15:
- 15.1, 15.5 e 15.9.
Horta Cultural — arte, água e território
Na Serra da Mantiqueira (Andradas/MG), a Horta Cultural integra arte, práticas ecológicas e conscientização sobre recursos hídricos. Sua atuação comunitária demonstra que pequenos projetos territoriais podem articular estética, educação ambiental e identidade local.
Conexões com ODS 15:
- 15.1 e 15.9.
Ecosia — cultura digital e restauração global
A Ecosia é um mecanismo de busca cuja receita publicitária financia projetos de reflorestamento em diversos países. Publica relatórios financeiros mensais, detalhando receitas, investimentos e número de árvores plantadas.
Embora não seja um projeto cultural tradicional, seu modelo evidencia como hábitos cotidianos e infraestrutura digital podem gerar impacto ambiental contínuo.
Conexões com ODS 15:
- 15.3, 15.5 e 15.a.
Como desenhar projetos culturais alinhados ao ODS 15
Projetos culturais podem estruturar sua contribuição ambiental de forma metodológica:
1. Integrar território ao conceito artístico
Residências, curadorias e parcerias com comunidades tradicionais.
Indicadores possíveis:
- nº de territórios envolvidos;
- nº de parcerias ambientais firmadas;
- presença de saberes tradicionais na programação.
2. Incorporar práticas sustentáveis
Plano ambiental, redução de resíduos e fornecedores locais.
Indicadores:
- % de fornecedores locais;
- redução de resíduos;
- protocolo ambiental implementado.
3. Trabalhar educação e mediação ecológica
Oficinas, relatórios públicos e avaliação de aprendizagem.
Indicadores:
- nº de participantes;
- produção de relatórios socioambientais;
- avaliação de impacto educativo.
4. Mobilizar recursos com narrativa ecológica
Campanhas vinculadas a restauração e compensação.
Indicadores:
- recursos mobilizados;
- árvores plantadas;
- hectares restaurados.
Metas do ODS 15 como bússola estratégica (versão integrada)
A incorporação do ODS 15 em projetos culturais torna-se mais consistente quando cada meta é traduzida em ação concreta e indicador mensurável. Abaixo, apresenta-se uma leitura aplicada e metodológica das metas mais acionáveis para gestores culturais.
Meta 15.1 — Conservação de ecossistemas terrestres
Projetos culturais podem estruturar programação em territórios naturais — parques, áreas de proteção ambiental, reservas, zonas rurais e comunidades tradicionais. Isso inclui residências artísticas em áreas protegidas, festivais com protagonismo comunitário, exposições sobre biomas locais e circuitos culturais integrados a paisagens naturais.
Como mensurar:
Indicadores quantitativos:
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número de territórios naturais envolvidos por edição ou por ano;
-
número de comunidades tradicionais participantes;
-
frequência anual de atividades realizadas em áreas naturais.
Indicadores qualitativos:
-
avaliação de percepção ambiental antes e depois de oficinas;
-
registro de depoimentos comunitários;
-
incorporação do território como eixo curatorial formal do projeto.
Exemplo prático: uma mostra cultural realizada em parceria com parque municipal pode aplicar questionários sobre conhecimento prévio e posterior dos participantes acerca da biodiversidade local.
Meta 15.3 — Restauração de áreas degradadas
Ações culturais podem integrar campanhas de plantio, adoção simbólica de áreas degradadas ou destinação de percentual do orçamento para reflorestamento, articulando-se com instituições técnicas ou modelos como os desenvolvidos por Instituto Terra ou Redda+.
Como mensurar:
Indicadores objetivos:
-
número de árvores plantadas;
-
hectares apoiados em restauração;
-
valor investido diretamente em recuperação ambiental.
Indicadores de continuidade:
-
monitoramento anual das áreas restauradas;
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existência de parcerias técnicas com universidades ou instituições de pesquisa.
Exemplo: um festival pode destinar parte da bilheteria à recuperação de nascentes locais, publicando relatório anual com área restaurada e espécies plantadas.
Meta 15.5 — Combate à perda de biodiversidade
Campanhas artísticas, mostras audiovisuais, performances públicas e ações digitais ampliam a percepção social sobre extinção de espécies e degradação ambiental.
Como mensurar:
Indicadores de alcance:
-
público presencial;
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visualizações online;
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engajamento em redes sociais.
Indicadores de impacto educativo:
-
aplicação de questionários;
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participação em oficinas;
-
adesão a compromissos ambientais após a ação.
Exemplo: campanha inspirada na Hora do Planeta pode mensurar adesão institucional, cobertura midiática e mobilização pública.
Meta 15.9 — Integração em políticas públicas
Projetos culturais podem atuar na formulação ou revisão de planos municipais de cultura, incorporando diretrizes ambientais, critérios de sustentabilidade em editais e protocolos ecológicos para equipamentos culturais.
Como mensurar:
-
inclusão explícita de metas ambientais em documentos oficiais;
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número de propostas protocoladas;
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participação em conselhos municipais de cultura ou meio ambiente;
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políticas públicas influenciadas pelo projeto.
Exemplo: rede de equipamentos culturais que propõe cláusula ambiental obrigatória em editais (como plano de gestão de resíduos ou compensação ambiental).
Meta 15.a — Mobilização de recursos financeiros
A captação pode ser orientada à conservação por meio de financiamento coletivo vinculado a reflorestamento, parcerias empresariais para compensação ambiental ou criação de fundos rotativos ecológicos.
Como mensurar:
-
valor total mobilizado para ações ambientais;
-
número de parceiros financeiros envolvidos;
-
percentual do orçamento cultural destinado a metas ambientais.
Exemplo: projeto que declara publicamente que 5% de seu orçamento será destinado à recuperação de área específica, com prestação de contas anual.
Considerações estratégicas para gestores
Mensuração não é burocracia; é ferramenta de legitimidade.
A literatura científica indica que transformações ambientais exigem mudança cultural profunda. Isso implica:
-
criar narrativas consistentes;
-
estruturar indicadores claros;
-
produzir relatórios públicos;
-
integrar cultura, ciência e governança.
Quando gestores culturais adotam indicadores ambientais — mesmo simples — transformam discurso em método.
E método é o que diferencia intenção de política pública.
Cultura digital, economia da atenção e biodiversidade
A experiência da Ecosia abre uma reflexão contemporânea: no ecossistema digital, cada clique, cada busca e cada interação compõem a economia da atenção. Quando modelos tecnológicos convertem atenção em financiamento para restauração ecológica, demonstram que cultura digital também é território de política ambiental.
Para gestores culturais que atuam com inovação, plataformas e comunicação digital, o aprendizado é claro: impacto ambiental pode ser incorporado à própria arquitetura do projeto — não apenas ao seu conteúdo temático.
Conclusão
Quando gestores culturais incorporam o ODS 15 como eixo estratégico, transformam biodiversidade em política cultural estruturante. A cultura não substitui ciência ambiental, mas é o que permite que ciência se converta em mobilização, pertencimento e continuidade.
A natureza deixa de ser cenário. Passa a ser compromisso.
Referências
- Organização das Nações Unidas. Goal 15: Life on Land. https://sdgs.un.org/goals/goal15
- Culture 2030 Goal Campaign. Culture in the Localization of the SDGs. https://culture2030goal.net
- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. https://www.embrapa.br
- Instituto Terra. https://institutoterra.org
- WWF-Brasil. https://www.wwf.org.br
- Instituto Socioambiental. https://www.socioambiental.org/pt-br
- Redda+. https://redda.com.br/projetos-de-reflorestamento-da-amazonia/
- Ecosia. https://www.ecosia.org/
- ZHENG, X. et al. (2021). Consideration of culture is vital if we are to achieve the Sustainable Development Goals. One Earth. DOI: 10.1016/j.oneear.2021.02.007.
-
IPBES. Global Assessment Report on Biodiversity and Ecosystem Services. 2019.
-
Bennett, N. J. et al. (2017). Mainstreaming the social sciences in conservation. PNAS.
-
UNESCO. Culture for Sustainable Development Reports.








