Trabalho, cultura e economia
Ao longo da história, a cultura esteve profundamente ligada ao trabalho. Muito antes da consolidação dos mercados industriais, foram os saberes artísticos, os ofícios tradicionais, as festas, as linguagens e as técnicas simbólicas que organizaram economias locais, estruturaram trocas e garantiram meios de subsistência. Produzir cultura sempre foi, também, produzir valor econômico.
Essa dimensão produtiva da cultura, no entanto, foi progressivamente invisibilizada. Durante décadas, políticas públicas e discursos econômicos trataram a cultura como custo, ornamento ou externalidade positiva — raramente como setor estratégico de geração de renda, emprego e inovação. Ainda assim, a prática social nunca deixou de afirmar o contrário: artistas, técnicos, produtores, designers, comunicadores e criadores continuaram trabalhando, gerando riqueza e movimentando cadeias produtivas complexas.
Hoje, essa relação histórica entre cultura e trabalho reaparece com nitidez, sustentada por dados econômicos e indicadores internacionais. A cultura não apenas expressa identidades: ela estrutura economias e sustenta milhões de postos de trabalho.
Crescimento econômico com fragilidades estruturais
O reconhecimento do peso econômico da cultura ocorre, entretanto, em um cenário marcado por contradições. No Brasil, o setor cultural e criativo cresce, amplia sua participação na economia e gera empregos — mas esse crescimento convive com altos níveis de informalidade, vínculos instáveis e precarização das relações de trabalho.
Debates recentes no âmbito da Assembleia Legislativa de Minas Gerais apontam que, embora a cultura seja um pilar econômico relevante, a informalidade ainda é regra em grande parte do setor cultural brasileiro, especialmente em segmentos artísticos e comunitários. A ausência de contratos estáveis, proteção social e direitos trabalhistas limita o alcance do que a Agenda 2030 define como trabalho decente (ALMG, 2023).
Essa tensão — entre expansão econômica e fragilidade laboral — é o ponto central para compreender a relação entre cultura e o ODS 8 — Trabalho Decente e Crescimento Econômico.
A cultura como setor estratégico para o trabalho decente
Apesar desses desafios, os dados mostram que a cultura possui características singulares para contribuir com o ODS 8. Quando estruturado por políticas públicas, marcos regulatórios e financiamento adequado, o setor cultural é capaz de gerar empregos qualificados, estimular inovação e oferecer salários acima da média nacional.
No Brasil, trabalhadores da economia criativa apresentam rendimentos médios superiores aos da economia em geral, refletindo a alta qualificação exigida em diversos segmentos do setor. Essa característica aproxima a cultura dos objetivos centrais do ODS 8, que propõe crescimento econômico sustentado, produtividade e trabalho digno para todas as pessoas (Meio & Mensagem, 2024).
Assim, a cultura não é apenas um campo vulnerável que demanda proteção: é também um ativo econômico com potencial para liderar estratégias de desenvolvimento baseadas em conhecimento, criatividade e diversidade cultural.
ODS 8: o que está em jogo
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 estabelece como metas centrais:
“Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos.” (ONU, s.d.)
Entre seus desdobramentos estão a formalização do trabalho, a proteção de direitos, o estímulo à inovação e o fortalecimento de setores econômicos capazes de gerar valor de forma sustentável. Nesse contexto, a cultura se apresenta como um campo estratégico, especialmente em economias marcadas por desigualdades sociais e territoriais.
Indicadores Culture | 2030: medindo cultura, trabalho e crescimento
Para tornar mensurável a contribuição da cultura ao desenvolvimento sustentável, a UNESCO desenvolveu os Culture | 2030 Indicators. Entre eles, os indicadores 6 a 12 dialogam diretamente com o ODS 8, ao medir dimensões estruturantes da economia cultural:
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Indicador 6 — Emprego cultural: mede a participação do emprego cultural no total de empregos, permitindo avaliar a relevância do setor no mercado de trabalho.
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Indicador 7 — Empresas culturais: analisa a presença e a estrutura de empreendimentos culturais, fundamentais para a formalização e sustentabilidade econômica.
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Indicador 8 — Governança cultural: observa marcos legais, políticas públicas e instituições que sustentam o setor.
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Indicador 9 — Financiamento da cultura: mede o investimento público e privado em cultura, condição essencial para gerar trabalho decente.
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Indicador 10 — Infraestrutura cultural: avalia a existência e distribuição de equipamentos culturais, diretamente ligados à geração de emprego local.
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Indicador 11 — Participação cultural: indica a demanda social por bens e serviços culturais, sustentando mercados e cadeias produtivas.
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Indicador 12 — Educação e cultura: mede formação e capacitação, base para empregos qualificados e inovação.
Esses indicadores evidenciam que trabalho decente na cultura não depende apenas de talento individual, mas de ecossistemas estruturados, capazes de sustentar mercados culturais sólidos.
Cultura e economia criativa no mundo
No plano internacional, o relatório Creative Economy Outlook 2024, da UNCTAD, mostra que a economia criativa responde por até 6,2% do emprego global, com participação significativa no PIB de diversos países. O documento destaca o setor como uma das frentes mais promissoras para crescimento inclusivo, especialmente em países do Sul Global, por combinar baixo impacto ambiental, alto valor agregado e forte base de conhecimento (UNCTAD, 2024).
Além disso, a economia criativa tem ampliado sua presença no comércio internacional de serviços, reforçando seu papel como vetor de desenvolvimento econômico em um contexto de transição produtiva global.
Evidências brasileiras: peso econômico e contradições
No Brasil, os dados mais recentes confirmam a relevância econômica do setor. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, a economia criativa respondeu por 3,59% do PIB brasileiro em 2023, o equivalente a aproximadamente R$ 393,3 bilhões (Firjan, 2025).
Esse desempenho coloca o setor em patamar comparável — e, em determinados momentos históricos, superior — ao de setores industriais tradicionais, como o automobilístico, revelando a centralidade econômica da cultura no país (Itaú Cultural, 2020).
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho criativo alcançou, em 2024, o maior nível da série histórica, com cerca de 7,8 milhões de pessoas ocupadas, segundo o Observatório Itaú Cultural. Esse crescimento, contudo, foi acompanhado por aumento da informalidade e pela persistência de vínculos precários, conforme análises recentes do setor (Itaú Cultural, 2024; Farofafá, 2025).
Trabalho decente exige política cultural
Os dados revelam um paradoxo: a cultura cresce, gera riqueza e emprego, mas ainda não garante, de forma consistente, trabalho decente. Superar essa contradição exige políticas culturais articuladas às agendas de trabalho, desenvolvimento econômico e proteção social.
Formalização, financiamento estruturado, capacitação profissional e fortalecimento da governança cultural são condições indispensáveis para que o setor contribua plenamente para o ODS 8.
Cultura como estratégia de desenvolvimento
A cultura tem a potência de articular crescimento econômico e justiça social. Ao reconhecer seu papel produtivo e estrutural, é possível avançar rumo a um modelo de desenvolvimento que valorize trabalho digno, diversidade cultural e sustentabilidade.
No Brasil, onde a vitalidade cultural é extraordinária, investir na cultura como setor econômico não é apenas uma escolha simbólica — é uma estratégia concreta para promover trabalho decente e crescimento inclusivo, em consonância com os compromissos da Agenda 2030.
Se o trabalho é um direito, a cultura é um dos caminhos mais férteis para garanti-lo com dignidade.
Bibliografia
ALMG. Cultura também é pilar da economia, mas informalidade ainda é a regra. 2023.
Disponível em: https://www.almg.gov.br/comunicacao/noticias/arquivos/Cultura-tambem-e-pilar-da-economia-mas-informalidade-ainda-e-a-regra/
FIRJAN. Mapeamento da Indústria Criativa 2025. 2025.
Disponível em: https://www.firjan.com.br/noticias/mapeamento-da-industria-criativa-2025-8AE4828D96AAF437019783E8CFE02F31-00.htm
Observatório Itaú Cultural. Economia Criativa — Mercado de Trabalho, 3º trimestre de 2024.
Disponível em: https://www.itaucultural.org.br/observatorio/paineldedados/publicacoes/boletins/
Itaú Cultural. PIB da Economia da Cultura e das Indústrias Criativas. 2020.
Disponível em: https://www.itaucultural.org.br/
Meio & Mensagem. Salários da economia criativa são maiores que a média nacional. 2024.
Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/
Farofafá. Emprego nas indústrias criativas cresce, mas relações de trabalho se precarizam. 2025.
Disponível em: https://farofafa.com.br/2025/04/17/emprego-nas-industrias-criativas-cresce-mas-relacoes-de-trabalho-se-precarizam/
UNCTAD. Creative Economy Outlook 2024.
Disponível em: https://unctad.org/system/files/official-document/ditctsce2024d2_en.pdf
UNESCO. Culture | 2030 Indicators. s.d.
Disponível em: https://en.unesco.org/creativity/governance/culture2030indicators








