Água, cultura e governança
Ao longo da história, a água foi mais do que um recurso: foi o elemento fundador de civilizações. Povos se estabeleceram às margens de rios e lagos, construindo ali seus modos de vida, seus rituais, seus mitos e suas arquiteturas. A forma como se coleta, armazena, distribui, celebra e protege a água moldou — e continua moldando — culturas inteiras.
Hoje, porém, essa relação ancestral encontra um cenário marcado por urgências dramáticas. A poluição dos cursos d’água e o saneamento precário ainda marcam profundamente a desigualdade social no Brasil. A exposição de populações vulneráveis à água contaminada revela uma crise sanitária, climática e social interligada. Estudos mostram, inclusive, que a contaminação por mercúrio decorrente do garimpo produz efeitos severos na saúde humana e ambiental, ameaçando ecossistemas e populações originários inteiras (Paula; Lamas-Corrêa; Tutunji, 2006) e (G1, 2023).
É nesse contexto que a cultura assume um papel decisivo. Artes, museus, produções audiovisuais e ações comunitárias têm se mostrado dispositivos fundamentais de sensibilização social, ampliando a consciência pública sobre o cuidado com mananciais, a gestão sustentável dos recursos hídricos e a defesa do direito universal à água. Em vários países, essa mudança alcançou inclusive marcos jurídicos — como o reconhecimento do Whanganui River (Nova Zelândia) e do Magpie River (Canadá) como entidades com personalidade legal (Blogs GWU, 2023): um gesto simbólico e político que reposiciona a água como sujeito de direitos, não apenas como recurso.
A partir dessa perspectiva, projetos culturais tornam-se pontes entre sociedade, ciência e políticas públicas, inspirando novos comportamentos e fortalecendo a implementação do ODS 6 – Água Potável e Saneamento.
ODS 6: o que está em jogo
As metas centrais do ODS 6 incluem:
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6.1 — “Alcançar o acesso universal e equitativo à água potável e segura para todos.” (ONU Brasil, s.d.)
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6.2 — “Alcançar o acesso a saneamento e higiene adequados e equitativos para todos e acabar com a defecação a céu aberto.” (ONU Brasil, s.d.)
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Além dessas, o ODS reforça objetivos como qualidade da água, gestão sustentável de recursos hídricos, participação comunitária e proteção de ecossistemas (UN-Water, s.d.).
Assim, cultura e água se conectam não apenas na dimensão simbólica, mas também na prática: mobilização social, mudança de comportamento, fortalecimento da governança e construção de imaginários coletivos em torno da preservação.
Projetos culturais internacionais que fortalecem o ODS 6
Viva con Agua de Sankt Pauli — arte e mobilização global
A organização alemã utiliza arte, música e movimentos culturais para promover acesso à água limpa e saneamento em diversos países (Viva con Agua, s.d.).
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Contribui para as metas 6.1 e 6.2, ao apoiar iniciativas de água potável e saneamento.
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Atua como ponte entre cultura, solidariedade e direitos humanos.
Keepers of the Waters — ecoarte e comunidades
Fundada pela artista Betsy Damon, a iniciativa une arte, ciência e ativismo para restaurar ecossistemas, promover governança participativa e transformar percepções sobre rios e águas vivas (Keepers of the Waters, s.d.).
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Relaciona-se às metas de conservação, uso sustentável e sensibilização ambiental.
Rios como sujeitos de direito — cultura e governança
Movimentos na Nova Zelândia e no Canadá, que resultaram no reconhecimento legal de rios como entidades vivas, envolvem amplo trabalho cultural, comunitário e jurídico (Blogs GWU, 2023).
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Fortalecem a proteção e a governança dos ecossistemas aquáticos, alinhando-se às dimensões ampliadas do ODS 6.
Projetos e produções brasileiras alinhadas ao ODS 6
Museu das Águas Brasileiras — água como patrimônio cultural
O museu nasce com o propósito de reafirmar a água como patrimônio natural, social e simbólico do Brasil (Visite Museus, s.d.), através de exposições, pesquisas e ações educativas.
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Contribui para as metas 6.1 e 6.2, fortalecendo consciência pública e educação hídrica.
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Ajuda a consolidar uma cultura de cuidado, essencial à gestão sustentável da água.
Instituto Trata Brasil — Documentário “A Luta pelo Básico”
A obra apresenta a realidade de comunidades brasileiras sem saneamento, revelando impactos diretos na saúde e na dignidade humana (Trata Brasil, s.d.).
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Contribui para as metas 6.1 e 6.2, ao comunicar a urgência do saneamento básico.
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Torna visível o que é estrutural e, muitas vezes, invisibilizado.
Produções audiovisuais sobre água e justiça hídrica
Além desse filme, outras obras audiovisuais reforçam a importância da água, sua escassez e a necessidade de boa gestão — como os documentários disponíveis em plataformas públicas e comerciais:
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A Água é Essencial para a Nossa Vida (YouTube),
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A Água que Falta (YouTube),
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Watermark, dirigido por Edward Burtynsky e Jennifer Baichwal (Amazon Prime Video).
Essas produções ampliam o repertório social sobre a crise hídrica e contribuem para mudanças de comportamento.
Meta 6.b e a força da participação comunitária
A meta 6.b propõe:
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ONU — “Apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais, para melhorar a gestão da água e do saneamento.”
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Brasil (IPEA) — “Apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais, priorizando o controle social.”
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Indicador 6.b.1 — proporção de unidades com políticas e procedimentos para participação comunitária na gestão da água.
Mãos que Cuidam da Água — participação cidadã como eixo estruturante
Vinculado ao Museu das Águas Brasileiras, o programa promove oficinas, formação docente e mobilização comunitária.
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Relaciona-se diretamente à Meta 6.b, pois atua no engajamento das comunidades e no fortalecimento do controle social.
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Contribui para que municípios avancem no indicador 6.b.1, estimulando práticas concretas de governança e cuidado compartilhado.
Cultura como agente de mudança hídrica
A cultura tem a potência de mover percepções — e, portanto, mover políticas. Narrativas, museus, filmes, oficinas e movimentos artísticos tornam visíveis problemas que muitas vezes passam despercebidos no cotidiano. Ao sensibilizar e engajar, a cultura:
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amplia a compreensão sobre o direito humano à água;
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fortalece práticas de conservação e uso racional;
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mobiliza comunidades para participar da gestão dos recursos hídricos;
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aproxima ciência, sociedade e políticas públicas.
No Brasil, onde a vitalidade cultural é extraordinária, existe um potencial inigualável para que o campo cultural lidere transformações significativas no ODS 6 — construindo consciência, inspirando mudanças e defendendo um futuro em que água limpa e saneamento sejam garantias universais.
Se a água é um bem comum, então a cultura é o caminho para que esse comum seja protegido, honrado e compartilhado.
Bibliografia
Blogs GWU. Riverine rights around the world: three case studies. 2023.
Disponível em: https://blogs.gwu.edu/law-gwpointsource/2023/04/19/riverine-rights-around-the-world-three-case-studies/
G1. Os riscos à saúde causados pelo uso de mercúrio no garimpo. 2023.
Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2023/02/08/os-riscos-a-saude-causados-pelo-uso-de-mercurio-no-garimpo.ghtml
Instituto Trata Brasil. Documentário: A Luta pelo Básico. s.d.
Disponível em: https://tratabrasil.org.br/documentario-a-luta-pelo-basico/
Keepers of the Waters. Informações institucionais. s.d.
Disponível em: https://www.ama-project.org/institution/keepers-of-the-water/
ONU Brasil. ODS 6 – Água Potável e Saneamento. s.d.
Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/6
Paula, V. G.; Lamas-Corrêa, R.; Tutunji, V. L. Garimpo e mercúrio: impactos ambientais e saúde humana. 2006.
Disponível em: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1413521
UN-Water. SDG 6 Synthesis Report. s.d.
Disponível em: https://www.unwater.org/publications/sdg-6-synthesis-report-2018-on-water-and-sanitation/
Viva con Agua de Sankt Pauli. Overview institucional. s.d.
Disponível em: https://www.vivaconagua.org/en/
Visite Museus. Portfólio — Museu das Águas Brasileiras. s.d.
Disponível em: https://visite.museus.gov.br/
Documentário 1 — “A Água é Essencial para a Nossa Vida” (YouTube)
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jgq_SXU1qzc
Documentário 2 — “A Água que Falta” (YouTube)
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yv3B4QuXA1U
Documentário 3 — “Watermark” (dir. Edward Burtynsky & Jennifer Baichwal)
Disponível em: https://www.amazon.com/Watermark-Edward-Burtynsky/dp/B00LM470KQ









