Inovação, valor e desenvolvimento a partir da criatividade
Quando falamos em indústria, inovação e desenvolvimento tecnológico, o imaginário coletivo ainda tende a associar esses temas exclusivamente a fábricas, máquinas e setores tradicionais de alta tecnologia. No entanto, a Agenda 2030 da ONU — e, em particular, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 9 (ODS 9) — nos convida a ampliar essa leitura: desenvolvimento industrial também passa por criatividade, cultura, conhecimento, design, comunicação e inovação social.
A economia criativa e a indústria cultural vêm se consolidando como vetores relevantes de crescimento econômico, geração de empregos qualificados, agregação de valor a materiais e territórios e fortalecimento de pequenos negócios. Mais do que setores “alternativos”, trata-se de um campo estratégico para promover industrialização inclusiva, sustentável e baseada em conhecimento, conforme estabelecem as metas 9.2, 9.3 e 9.b do ODS 9.
Neste artigo, defendemos quatro teses centrais sobre o papel da indústria cultural na construção de uma indústria mais resiliente, inovadora e sustentável.
1. A indústria cultural cresce no Brasil e no mundo em participação no PIB
A economia criativa vem apresentando crescimento consistente e ampliando sua participação no produto interno bruto de diversos países. Segundo relatório da UNCTAD (2022), as exportações globais de bens e serviços criativos mais do que dobraram entre 2005 e 2019, alcançando US$ 1,5 trilhão, com forte dinamismo nos setores de audiovisual, design, jogos digitais, moda, música e software criativo.
No Brasil, os dados mais recentes confirmam essa tendência. De acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil 2025, da Firjan, em 2023 a economia criativa respondeu por 3,59% do PIB nacional, movimentando R$ 393,3 bilhões. O relatório aponta uma trajetória de crescimento contínuo desde meados dos anos 2000, com aceleração a partir de 2021, mesmo em um contexto de instabilidade econômica.
Reportagens do Valor Econômico, da Folha de S.Paulo e do Nexo Jornal também têm destacado a retomada e a expansão do setor cultural e criativo no pós-pandemia, com destaque para o audiovisual, a produção musical independente, os jogos digitais, o design e os grandes eventos culturais como motores de desenvolvimento regional.
Relação com a Meta 9.2
A Meta 9.2 busca aumentar significativamente a participação da indústria no PIB e no emprego. Ao reconhecer a cultura e a criatividade como setores industriais intensivos em conhecimento, o Brasil amplia o valor adicionado da indústria em proporção do PIB (Indicador 9.2.1) e diversifica sua matriz produtiva, fortalecendo uma industrialização mais sustentável e menos dependente de commodities.
2. A economia criativa gera empregos qualificados e de maior remuneração
A indústria cultural é intensiva em conhecimento, formação técnica, capital simbólico e inovação. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025 (Firjan), o Brasil contava, em 2023, com 1,26 milhão de profissionais criativos formalmente empregados, crescimento de 6,1% em relação a 2022, ritmo superior ao do mercado de trabalho nacional como um todo.
O mesmo estudo mostra que os empregos criativos se concentram em áreas de maior complexidade produtiva, como tecnologia da informação, design, publicidade, audiovisual, pesquisa e desenvolvimento, além das atividades culturais propriamente ditas. Um dado especialmente relevante para o campo da cultura é que a área cultural foi a que mais cresceu em termos de emprego em 2023 (+10,4%), superando inclusive setores tradicionalmente associados à economia criativa, como consumo e tecnologia.
Esses números confirmam diagnósticos anteriores da FIRJAN e do Observatório Itaú Cultural, que indicam que os profissionais da economia criativa tendem a apresentar níveis de escolaridade mais elevados e remuneração média superior à de setores tradicionais, especialmente nos segmentos ligados à tecnologia, design, comunicação e audiovisual.
Relação com a Meta 9.2
Ao ampliar a participação da economia criativa no mercado de trabalho, o setor contribui diretamente para o Indicador 9.2.2 — emprego na indústria em proporção do emprego total. Trata-se de uma forma de industrialização baseada em capital humano, inovação e conhecimento, alinhada ao objetivo brasileiro de elevar produtividade e melhorar as condições de trabalho.
3. Criatividade agrega valor a materiais, processos e intangíveis
Uma das características centrais da economia criativa é sua capacidade de transformar matéria-prima comum, resíduos, saberes tradicionais e recursos simbólicos em produtos de alto valor econômico e cultural. O relatório da Firjan destaca que a criatividade funciona como insumo produtivo estratégico, sendo determinante para a propriedade intelectual, a inovação, a diferenciação de produtos e a geração de valor agregado intangível em diversos setores da economia.
Essa lógica se materializa em iniciativas de design sustentável, moda circular, artesanato contemporâneo, cenografia ecológica e reaproveitamento criativo de materiais. Projetos como o Instituto A Gente Transforma (RJ), que capacita jovens para criar objetos de design a partir de resíduos, e coletivos de upcycling na moda brasileira ilustram como a cultura transforma baixo custo material em alto valor simbólico e econômico.
Estudos acadêmicos, como os de Bendassolli et al. (2019), reforçam que os setores criativos operam com forte capacidade de inovação em processos produtivos sustentáveis, ampliando o valor econômico sem aumento proporcional de insumos físicos. Reportagens da Exame, da Revista Piauí e de veículos internacionais como The Guardian também apontam o crescimento do design circular e da economia criativa verde como estratégias de inovação industrial.
Relação com a Meta 9.b
A Meta 9.b propõe apoiar a inovação e a agregação de valor às commodities. A indústria cultural atua exatamente nesse ponto: ao transformar recursos materiais e simbólicos em produtos intensivos em propriedade intelectual, design e marca, contribui para elevar a proporção do valor adicionado em indústrias de média e alta intensidade tecnológica (Indicador 9.b.1).
4. A economia criativa estimula pequenas empresas e cadeias produtivas locais
Festivais, coletivos artísticos, produtoras independentes, estúdios criativos, ateliês, startups culturais e iniciativas comunitárias operam majoritariamente como micro e pequenas empresas, responsáveis por ativar cadeias produtivas locais que envolvem técnicos, comunicadores, designers, artistas, fornecedores, serviços logísticos e economia de território.
O Mapeamento da Firjan evidencia que a economia criativa se estrutura por arranjos produtivos descentralizados e intersetoriais: uma parcela significativa dos profissionais criativos atua fora das grandes corporações e, inclusive, em setores tradicionais da indústria, levando design, comunicação e inovação para outros ramos produtivos. Em 2023, por exemplo, 17,5% dos trabalhadores criativos atuavam diretamente na indústria clássica, demonstrando o papel transversal da criatividade na modernização produtiva.
Projetos como o Porto Digital (Recife), redes de festivais independentes, incubadoras culturais do SESC, programas de startups criativas e políticas de fomento como a Lei Paulo Gustavo, a Política Nacional Aldir Blanc e o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos ilustram como a cultura cria ecossistemas de pequenos negócios integrados a mercados regionais, nacionais e globais.
Relação com a Meta 9.3
A Meta 9.3 busca ampliar o acesso das pequenas empresas a serviços financeiros e sua integração em cadeias de valor. A economia criativa depende diretamente de crédito, editais, fundos de fomento, políticas públicas e soluções tecnológicas de financiamento coletivo. Assim, contribui para:
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Indicador 9.3.1: aumento do valor adicionado das pequenas empresas na indústria;
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Indicador 9.3.2: ampliação do acesso ao crédito para micro e pequenos empreendimentos criativos.
Cultura como vetor de uma indústria mais resiliente e sustentável
Projetos culturais bem estruturados incorporam práticas diretamente alinhadas ao ODS 9:
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Formação técnica e capacitação profissional em produção cultural, tecnologia criativa, gestão e comunicação;
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Uso de tecnologias digitais para produção, distribuição e monetização de conteúdo;
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Design de cadeias produtivas locais, valorizando fornecedores regionais;
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Sustentabilidade ambiental, com cenografia reutilizável, logística reversa e reaproveitamento criativo de materiais;
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Monitoramento de impacto econômico, mensurando geração de emprego, renda e fortalecimento de pequenos negócios.
Ao integrar cultura, inovação e desenvolvimento territorial, a economia criativa contribui para uma indústria mais diversificada, menos dependente de commodities e mais orientada ao conhecimento — exatamente o horizonte proposto pelo ODS 9.
Conclusão
A indústria cultural não é um apêndice da economia: ela é parte constitutiva de uma nova lógica de desenvolvimento baseada em criatividade, tecnologia, valor simbólico e sustentabilidade. Ao crescer em participação no PIB, gerar empregos qualificados, agregar valor a materiais e estimular pequenas empresas, a economia criativa se alinha diretamente às metas 9.2, 9.3 e 9.b do ODS 9.
Investir em cultura é investir em inovação, em cadeias produtivas mais humanas e em um futuro industrial mais resiliente, inclusivo e sustentável.
Bibliografia e Referências
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FIRJAN. Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil 2025. Rio de Janeiro: Firjan, 2025.
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UNCTAD. Creative Economy Outlook 2022. United Nations Conference on Trade and Development, 2022.
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BENDASSOLLI, P. F.; WOOD JR., T.; KIRSCHBAUM, C.; CUNHA, M. P. Indústrias Criativas no Brasil. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2019.
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OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL. Economia da Cultura e das Indústrias Criativas no Brasil. São Paulo: Itaú Cultural, 2023.
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SEBRAE. Economia Criativa e Pequenos Negócios no Brasil. Brasília, 2022–2024.
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VALOR ECONÔMICO. “Economia criativa amplia participação no PIB brasileiro.” 2023–2024.
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FOLHA DE S.PAULO. “Setor cultural cresce acima da média e impulsiona empregos no pós-pandemia.” 2023–2024.
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NEXO JORNAL. “Como a economia criativa gera empregos qualificados no Brasil.” 2023.
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EXAME. “Moda sustentável e design circular ganham espaço na economia criativa.” 2023.








