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Cultura e ODS 1: Arte, Inovação e Ação em Rede na Superação da Pobreza Multidimensional

Ilustração do personagem Alquimista da Cultura segurando o símbolo vermelho do ODS 1 sobre a erradicação da pobreza. Ele utiliza a magia da arte para transformar um cenário de periferia vulnerável em uma comunidade vibrante e próspera através da economia criativa.

A Pobreza em Números e o Chamado à Ação Cultural

Quando abordamos o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 1, focado na erradicação da pobreza em todas as suas formas, lidamos com a realidade mais dura e urgente da humanidade. O cenário global é alarmante. A Organização das Nações Unidas, em seu Índice de Pobreza Multidimensional de 2024(6), revela que pelo menos 1,1 bilhão de pessoas vivem em pobreza multidimensional. Desse total, 584 milhões são crianças menores de 18 anos. Em nível global, cerca de 27,9% das crianças vivem na pobreza, em comparação com 13,5% dos adultos. São centenas de milhões de pessoas desprovidas de saneamento adequado, moradia digna e nutrição básica.

No Brasil, os dados recentes desenham um quadro de recuperação, mas que ainda exige alerta constante e ação enérgica. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024)(4) aponta que, entre 2023 e 2024, a proporção da população do país na pobreza recuou de 27,3% para 23,1%, o que representa a saída de 8,6 milhões de pessoas dessa condição. A extrema pobreza também caiu de 4,4% para 3,5%. 

No entanto, essa vitória é frágil. O próprio IBGE alerta que, sem os benefícios de programas sociais, a proporção de pessoas na extrema pobreza subiria para 10,0% da população, enquanto a proporção da pobreza aumentaria para 28,7%. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2025) reforça essa tese em sua Nota Técnica 120(5), demonstrando que os ganhos distributivos recentes foram impulsionados em igual medida pelo aquecimento do mercado de trabalho e pela expansão das transferências assistenciais.

Para o gestor cultural, um dado do IBGE deve ecoar como um chamado inadiável: a pobreza no Brasil tem cor, gênero e classe trabalhadora definida. Cerca de 30,4% das mulheres pretas ou pardas são pobres, enquanto entre os homens brancos esse percentual é de apenas 14,7%. Além disso, o Brasil tem a segunda maior desigualdade de rendimento entre quarenta países analisados pela OCDE, possuindo a maior proporção de trabalhadores pobres (16,7%), concentrados majoritariamente na agropecuária e nos serviços domésticos.

Se nós, gestores e gestoras culturais, desejamos contribuir de maneira real com o ODS 1, precisamos internalizar esses números e transformar nossa perplexidade em metodologia. A cultura não é um adorno; é um motor de desenvolvimento econômico e coesão social. Este artigo documenta como a economia criativa atua diretamente nas metas do ODS 1, convidando você a aplicar essas estratégias em seus próprios projetos.

1. O ODS 1 e as Metas Estratégicas para o Setor Cultural

O Brasil, sob coordenação do IPEA, realizou adequações nas metas globais da Agenda 2030, tornando explícita a necessidade de políticas focadas. Gestores culturais devem alinhar seus projetos a estas diretrizes práticas:

Metas 1.1 e 1.2 (Erradicação da pobreza extrema e redução da pobreza multidimensional): A pobreza não é apenas monetária; ela envolve a exclusão simbólica e o isolamento. Ao desenhar um festival ou um centro cultural na periferia, o gestor gera empregos diretos e indiretos, movimentando a economia local e atacando a pobreza em suas múltiplas dimensões.

Meta 1.3 (Sistemas de proteção social): O setor cultural é historicamente marcado pela informalidade. Projetos financiados por leis de incentivo devem adotar como exigência a formalização de suas equipes (como Microempreendedor Individual), conectando iluminadores, produtores e artistas ao sistema previdenciário e de proteção social.

Meta 1.4 (Acesso a serviços, recursos e novas tecnologias): A meta exige garantir que os pobres tenham acesso a novas tecnologias. Seu projeto cultural pode incluir laboratórios de inovação, oferecendo acesso gratuito à internet, computadores e letramento digital para comunidades vulneráveis.

2. A Arte que Denuncia e Mobiliza: Visibilidade como Estratégia

O primeiro passo para erradicar a pobreza é romper a invisibilidade. A arte possui o poder único de humanizar as estatísticas. O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado chocou e mobilizou o mundo com exposições como “Sahel: L’Homme en Détresse”, retratando a fome na África, e “Gold, Mina de Ouro Serra Pelada”, escancarando o trabalho subumano. Na música, o movimento Hip Hop transformou a vivência das favelas em denúncia global, forçando a sociedade a ouvir as narrativas da exclusão.

O Borgen Project (2022)(1) cita o lançamento de uma plataforma no Oriente Médio, em 2015, focada em expor a pobreza na região árabe através de imagens e vídeos enviados por usuários. O lema desse movimento deve inspirar toda a curadoria cultural contemporânea: “A arte muda percepções, as percepções mudam as pessoas, as pessoas mudam o mundo”. Gestores culturais devem utilizar seus palcos, telas e galerias para ecoar as vozes dos invisibilizados, transformando a empatia do público em engajamento político e solidário.

3. Pobreza, Criatividade e Empreendedorismo: O Gestor como Incubador

Existe um mito persistente de que a inovação tecnológica e criativa pertence exclusivamente a polos como o Vale do Silício. O Borgen Project desconstrói essa falácia, afirmando que os verdadeiros inovadores do nosso tempo são aqueles que vivem nas fronteiras dos países em desenvolvimento, pois compreendem a complexa relação entre criatividade e recursos escassos. Marcelo Giugale, do Banco Mundial, lembra que “inovação não é o mesmo que invenção; inovação é a aplicação prática de uma invenção“. Pessoas em situações extremas são impulsionadas a criar soluções vitais para seu cotidiano.

No entanto, a criatividade nascida na miséria enfrenta barreiras estruturais severas. A professora Laura Doering, da Universidade de Toronto (2016), viajou ao Panamá para pesquisar empreendedores pobres e concluiu que a pobreza dificulta e, paradoxalmente, incentiva a criatividade no mercado. Doering relata que a migração constante em busca de trabalho facilita o fluxo de novas ideias. Contudo, ela adverte: as condições de pobreza tornam muito difícil a sustentabilidade desses empreendimentos criativos, limitando a capacidade de lucrar com eles. A solução apontada pela pesquisadora é clara: os governos e as instituições devem usar incubadoras de empresas e subsídios financeiros (cash grants) para ajudar esses empreendedores.

Aqui reside uma oportunidade de ouro para o gestor cultural. Seus editais, projetos e espaços culturais podem e devem atuar como essas “incubadoras”. Ao oferecer bolsas de criação, mentorias de gestão e espaços de trabalho compartilhados para artistas e produtores periféricos, o gestor cultural fornece a infraestrutura que falta para que a criatividade da base da pirâmide se transforme em negócios sociais lucrativos e sustentáveis.

4. O Ecossistema de Dignidade: O Estudo de Caso Gerando Falcões

A teoria do apoio ao empreendedorismo periférico ganha forma e escala na atuação da organização Gerando Falcões(3). A história dessa rede é um testemunho do poder da ação cultural e social. Tudo começou em 2011, no quarto de uma casa sem reboco em Poá, São Paulo. Edu Lyra deixou a faculdade para escrever e publicar de forma independente o livro “Jovens Falcões”. Com um time de 30 jovens, o livro passou a ser vendido de porta em porta por R$ 9,99. O sucesso dessas vendas permitiu alugar uma sala, comprar computadores e dar início a um império de impacto social.

Hoje, a Gerando Falcões é um ecossistema que atua com uma rede de mais de 2.200 líderes sociais em todo o país. A organização defende o combate à pobreza multidimensional, compreendendo que renda sem saneamento, educação e cultura não gera dignidade. Eles operam através de tecnologias sociais escaláveis, como a “Falcons University“, uma frente educacional que desenvolve líderes, jovens e mulheres das periferias, e o “Favela 3D“, que promove intervenção física, econômica e desenvolvimento social sistêmico.

Para gestores culturais, a Gerando Falcões ensina que um projeto não precisa ser pontual. Ao planejar suas ações, pense em escala. Como sua iniciativa de teatro, música ou literatura pode formar líderes comunitários? Como seu projeto pode se conectar a uma rede maior para garantir não apenas acesso à cultura, mas também geração de renda e desenvolvimento urbano?

5. Cultura, Entretenimento e Atendimento Emergencial: A Potência da CUFA

A urgência da fome exige respostas imediatas, e a indústria do entretenimento possui uma capacidade de mobilização inigualável. A Central Única das Favelas (CUFA)(2), com mais de 25 anos de história, é o exemplo definitivo de como cultura, esporte e empreendedorismo podem transformar territórios em mais de 79 países. 

A atuação da CUFA prova que a favela não é carência; a favela é potência. Projetos monumentais como a “Taça das Favelas“, o maior campeonato de futebol entre comunidades do mundo, e a “Expo Favela Innovation“, a maior feira de negócios de favelas do planeta, são plataformas que injetam milhões na economia local, atraem investidores e mudam a narrativa sobre a periferia. Durante a pandemia de Covid-19, a instituição liderou o programa “Mães da Favela” em parceria com a UNESCO, distribuindo cestas básicas físicas e digitais e chips de internet para mais de 17 milhões de pessoas, unindo segurança alimentar à inclusão digital.

Gestores culturais podem aplicar imediatamente a expertise da CUFA na logística de seus eventos. Um exemplo formidável ocorreu na turnê “After Hours Til Dawn” do astro global The Weeknd pelo Brasil. Em uma parceria estratégica com a CUFA, a produção do evento viabilizou o “Ingresso Solidário”, concedendo descontos em setores selecionados mediante a doação de 2kg de alimentos não perecíveis. A CUFA gerenciou a triagem e a logística de toneladas de mantimentos, destinando-os a famílias vulneráveis. 

Esta é uma provocação direta a você, produtor e gestor: integre o “Ingresso Solidário” em todos os seus festivais, peças de teatro e shows. Transforme a experiência cultural do seu público em uma grande rede de apoio logístico, democratizando o acesso e gerando benefícios tangíveis para a sociedade.

6. Patrimônio Imaterial e Sustentabilidade Alimentar

A cultura também é uma ferramenta vital para o ODS 1 através da proteção do patrimônio imaterial ligado à alimentação. Comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas possuem saberes milenares de cultivo, conservação de sementes e preparo de alimentos que são extremamente resilientes a crises econômicas.

O gestor cultural pode estruturar projetos de gastronomia social, apoiando feiras de produtores locais, mapeando receitas ancestrais em livros ou documentários e promovendo o turismo de base comunitária. Ao valorizar essas práticas, a gestão cultural não apenas preserva a memória, mas fomenta formas de economia solidária que libertam famílias da dependência exclusiva do mercado formal, garantindo segurança alimentar e autonomia financeira.

7. Guia para Gestores: Métricas e Indicadores Cultura|2030 para o ODS 1

Para que projetos culturais sejam formalmente reconhecidos como mecanismos de implementação da Agenda 2030, eles precisam ser medidos. Com base no framework Culture|2030 Indicators da UNESCO (2019), elencamos abaixo algumas sugestões de indicadores que podem ser usados no seu projeto, focados no ODS 1:

Ação para Gestores – Indicador de Desempenho | Meta ODS 1 | Indicador Culture\|2030

Ação para Gestores Indicador de Desempenho Meta ODS 1 Indicador Culture|2030
Adoção de Ingressos Solidários em eventos culturais Toneladas de alimentos e agasalhos arrecadados; Nº de famílias em situação de vulnerabilidade atendidas. 1.1 e 1.2 Indicador 18: Cultura para a Coesão Social
Implementação de incubadoras criativas periféricas Nº de microempreendedores apoiados; Volume de subsídios financeiros (cash grants) distribuídos. 1.4 Indicador 13: Educação para o Desenvolvimento Sustentável**
Formalização das equipes de produção cultural % de trabalhadores do projeto com acesso a MEI, contratos formais e previdência social. 1.3 Indicador 8: Emprego Cultural
Estruturação de polos de cultura e inclusão digital Nº de pessoas de baixa renda com acesso a letramento digital, computadores e internet nos espaços do projeto. 1.4 Indicador 20: Acesso à Cultura e Informação
Fomento a feiras culturais e gastronomia tradicional Volume financeiro circulado diretamente para artesãos, cozinheiras e detentores de saberes tradicionais. 1.2 e 1.5 Indicador 9: Despesas Culturais / Economia

Convocação à Ação: A Cultura como Alicerce da Dignidade

Gestores culturais, produtores, artistas e curadores: a erradicação da pobreza extrema não é apenas um desafio para economistas e governantes. É uma responsabilidade nossa. Os dados do IBGE e do IPEA provam que o Brasil tem capacidade de reverter quadros catastróficos quando une a força do trabalho a redes sólidas de proteção e assistência. 

A professora Laura Doering provou que a criatividade ferve na base da pirâmide, aguardando apenas o incentivo correto. A Gerando Falcões demonstrou que a venda de um livro pode gerar uma rede nacional de dignidade. A CUFA provou que um festival de música internacional pode alimentar milhares de pessoas e que a favela é o maior polo de inovação do país.

Seu projeto cultural possui pessoas criativas, visibilidade e capacidade de aglomeração. Use esses recursos de forma estratégica. Incubem talentos invisíveis. Arrecadem recursos para emergências. Formalizem seus trabalhadores. A erradicação da pobreza passa, obrigatoriamente, pela democratização e profissionalização da cultura e da economia criativa. 

Transformemos a indignação em método. O palco é nosso.

Bibliografia

  • (1)BORGEN PROJECT. The Relationship Between Creativity, Innovation and Poverty. 2022. Disponível em: https://borgenproject.org/creativity,innovation,and,poverty/. Acesso em: 4 maio 2026.
  • (2)CUFA, CENTRAL ÚNICA DAS FAVELAS. Favela é Potência: Histórico e Ações Globais Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://cufa.org.br/. Acesso em: 4 maio 2026.
  • (3)GERANDO FALCÕES. O que fazemos: Ecossistema de desenvolvimento social. São Paulo, 2025. Disponível em: https://www.gerandofalcoes.com/. Acesso em: 4 maio 2026.
  • (4)IBGE, INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Síntese dos Indicadores Sociais: 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
  • (5)IPEA, INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Pobreza e Desigualdade no Brasil no Curto e no Longo Prazo. Nota Técnica DISOC Nº 120. Brasília: Ipea, 2025.
  • (6)ONU, ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Mundo tem pelo menos 1,1 bilhão de pessoas pobres em vários níveis. Índice de Pobreza Multidimensional 2024. Nova York: PNUD/ONU, 2024.
  • (7)UNIVERSITY OF TORONTO. Poverty can both hinder and stimulate entrepreneurial creativity, says U of T prof. Toronto, 2016. Disponível em: https://www.utoronto.ca/. Acesso em: 4 maio 2026.
  • (8)UNESCO. Thematic Indicators for Culture in the 2030 Agenda (Culture|2030 Indicators). Paris: UNESCO, 2019.

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